Blues, Jazz e Vertentes: Samsung Blues Festival 2015
Publicada em 25, Jun, 2015 por Marcia Janini
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O HSBC Brasil recebeu nos dias 17, 18, 19 e 20 de junho a edição 2015 do Samsung Blues Festival trazendo grandes nomes do blues, jazz e soul music. Além dos veteranos George Benson, Jimmie Vaughin e Charlie Musselwhite, nomes da atualidade como Ben Harper e Quinn Sullivan fizeram parte do e evento. Os brasileiros Tiffany Harper, Ari Borger, Flávio Guimarães e Nuno Mindelis também participam em shows de abertura.
Subindo ao palco por volta das 20h00 da última quarta-feira 17 de junho e abrindo a edição 2015 do Samsung Blues Festival, a gaitista brasileira Tiffany Harp com grande destreza e versatilidade técnica toca clássicos do blues, jazz e doo wop em versões instrumentais, acompanhada pela banda composta de contrabaixo acústico, guitarra e bateria, numa apresentação clean.
Quinn Sullivan inicia sua apresentação por volta das 21h00. Trazendo o rock pautado em vertentes soft e hard, com influências nos anos 70 e 80, o virtuoso guitarrista, dotado também de belo timbre vocal, executa com grande propriedade cover de um dos grandes clássicos da fusão hard rock/ blues "Got To Get Better in a Little While" sucesso com Derek and The Dominoes.
As divertidas "Getting There" e "Mister Gloom" com seu andamento ralentado, sugerem de forma descontraída e fluida certo despojamento nas melodias de arranjos simples, determinados pelos acordes rascantes da guitarra, do baixo em dub realizando contraponto com a bateria de condução precisa, permeados pelo malemolente teclado em delicioso swing no acompanhamento.
"My Sweet Guitar" traduz em seu bojo influências de rockabilly e o inebriante andamento frenético do hard rock, brilhantemente pontuado pela magistral condução da bateria.
Com extrema habilidade técnica, o jovem Sullivan executa perfeito cover para "Little Wing" uma das canções de maior sucesso da The Jimi Hendrix Experience. Num de seus melhores momentos durante a apresentação, simples e ousado, surge com vocal inspirado, trazendo novas tonalidades à densa melodia.
Explorando a mescla de estilos como o country rock e o jazz, embutidos na base hard rock a urgente "Cyclone", seguida pela introspectiva e sensual "She Gets Me" traduzem grandes momentos da performance individual de Sullivan, em acordes e riffs preciosos, repletos de cromatismos para os inovadores arranjos.
Finalizando sua passagem pelo festival "Buddy's Blues" segue a tradição do blues clássico em sua tessitura, permeada por esparsos elementos inovadores extraídos de sonoridades pop, determinando frescor e atualidade à composição.
Às 22h35, a aguardada apresentação de George Benson principia trazendo o delicioso swing de "Nature Boy" seguido por "Califórnia P. M." na cadência do jazz, trazendo elementos da disco music bem pontuados pelo teclado e pela bateria, explorando conversões rebuscadas.
Interpretando "Love x Love" no melhor estilo crooner, Benson demonstra sua perfeita forma vocal, em modulações de exímia perícia para "Nothing's Gonna Change My Love For You", em um momento especial do show com grande resposta do público.
Mantendo o mote de romantismo e suavidade, o hit "In Your Eyes" interpretado em versão fidedigna à original emociona os presentes.
A suavidade expressa nos acordes da dançante "Breezin", contrabalançada pelo vocal bem posicionado e vigoroso alia-se à deliciosa cadência do r&b, explorando elementos modernos de sonoridades street como o charm, fazendo desta canção um clássico sempre atual.
A instrumental "At the Mambo Inn" alia as notas blueseiras da guitarra semi acústica de Benson com a percussão rumbeira, latina e ensolarada, num composto que remete ao calipso. Nota para a brilhante condução da bateria.
Em mais um inspiradíssimo momento da performance de Benson, a inusitada versão para "Don't Know Why" sucesso de Norah Jones, com seu aveludado vocal atingindo notas altas de enorme complexidade técnica, aliados aos vocalizes bem pontuados nas finalizações traz a participação especial da percussionista Lilliana de Los Reyes.
O hit "Kisses in The Midnight" na cadência do r&b trazendo a sensualidade latina da rumba determinada pela percussão e backing vocal feminino de Lilliana precede o hit "Moody's Mood".
"Turn You Love Around" repleta de cromatismos e arranjos de intrincada complexidade, demonstra mais uma vez o grande talento e versatilidade do cantor, em evoluções vocais nada óbvias. Nota para a brilhante participação da percussionista Lilliana dividindo os microfones em segunda voz.
As instrumentais "Lately" e "The Ghetto" surgem reafirmando o grande talento de Benson na condução da guitarra. Em arranjos que aliam perícia técnica ao brilhantismo de melodias bem construídas, surgem glissandos e cromatismos intensos, de grande beleza e valor estético.
"Love Ballad" surge com o afinadíssimo vocal de De Los Reyes em trinados e vocalizes poderosos, de timbre doce e aveludado, numa grata surpresa.
A execução de "Give Me The Night", marca mais um dos pontos altos da apresentação de Mr. Benson, com intensa participação do público, numa total sinergia palco/platéia.
Após pequena pausa para o bis "Never Give Up on a Good Thing" surge num delicioso convite à diversão, com imediata resposta do público, que dançou ao som da contagiante melodia.
Encerrando a apresentação, o grande hit "On Broadway", na estelar regravação para o clássico de The Drifters. Memorável!
No segundo dia do festival, a abertura fica a encargo do Ari Borger Quartet em sofisticada jam session instrumental. Trazendo medley de grandes clássicos do blues, jazz e ragtime, o pianista impressiona pela grande agilidade e destreza técnica, em performance arrebatadora.
Subindo ao palco por volta das 22h00, Jimmie Vaughan and The Tilt-a-Whirl Band com a participação especial de Lou Ann Barton traduz o melhor do blues texano, com suas influências no country e soul, determinada pelo duo de metais composto de sax tenor e trombone de pisto, aliados ao perfeito contrabaixo acústico e à bem temperada bateria.
Após a explosão de ritmo de "Comin' and Goin'" e a execução de "It's Been a Long Time", canção pautada nas raízes do blues, surge a descontraída "I Ain't Never" em versão pautada na cadência alegre e contagiante do rockabilly para o sucesso de Webb Pierce.
No cover para "Dirty Work at the Crossroads" (Clarence "Gatemouth" Brown) o músico demosntra boa parte de seu talento como guitarrista e intérprete, traduzindo densidade à introspectiva canção.
O ponto culminante da apresentação surge na execução de "Just a Little Bit" em versão revisitada para o original de Rosco Gordon. Dignas de menção as performances individuais do sax tenor e do trompete em breves solos de arranjos preciosos, intrincados e frenéticos, ao sabor da jovial cadência rock da melodia.
Dona de uma das vozes femininas mais personificadas do blues Lou Ann Barton inicia sua participação com a execução da divertida "I'm in the Mood For You", seguida pela densa e introspectiva "Baby Scratch My Back" (cover para original de Slim Harpo) onde o timbre grave e suavemente encorpado da cantora trouxe grande carga de dramaticidade à canção, apoiando com propriedade o mote expresso pela letra apaixonada.
Dividindo com Vaughin os vocais de "Oh Yea" e "Boom-Bapa-Boom" na cadência divertida e vibrante do country rock, Lou Ann realiza modulações interessantes, apoiando-se em tonalidades agudas para as canções repletas de vitalidade. Nota para a impecável condução da guitarra, explorando acordes diferenciados em arranjos ousados e de grande complexidade instrumental.
Em mais demonstrações de seu enorme talento e habilidade, Jimmi encerra sua participação no espetáculo na versão solo para "Six Strings Down", seguida pela swingada "D/FW".
Após a breve abertura do gaitista Flávio Guimarães (ex-Blues Etílicos) em dueto com o guitarrista Netto Rockfeller executando canções de seu álbum "Nice and Easy" para a terceira noite de apresentações no festival, Charlie Musselwhite sobe ao palco cerca das 21h30, trazendo o jazz e o blues de raiz. Em "Bad Boy Blues", primeira canção apresentada na cadência vigorosa e alegre do jazz, surgem as influências típicas do cancioneiro da região delta do Mississipi, com o característico acento country.
No blues clássico de andamento constante, "Big Legged Woman" surge traduzindo na gaita atmosfera alegre e malemolente, seguido pela deliciosa "Good Blues Tonight", com charmosos elementos da sonoridade latina, remontando ao calipso, determinados pela brilhante bateria em perfeitas evoluções da caixa, à guisa de percussão.
A dançante "Cristo Redentor" em estrutura de rondó, faz alusão ao xote/ baião e às cirandas do regionalismo nordestino, numa homenagem singela ao cancioneiro nacional. Nota para a maestria da condução da harmônica, simulando a sonoridade dos pífanos do agreste pernambucano, num trabalho belíssimo e de grande complexidade técnica. Belo momento da apresentação.
Com bateria cadenciada e guitarra em arranjos solapados, "Cryin Won't Help You Now" alia ainda o baixo em dub realizando o contraponto e a gaita em trinados despojados, trazendo à composição aura de marcante simplicidade, em mais um bom momento da apresentação.
Trazendo o apelo country sulista na cadência "Chicken Shack", em sua estrutura cíclica de andamento frenético, determina mais um bom momento da performance individual de Musselwhite traduzindo em seu vocal a expressividade determinada pela descontraída letra. Digna de menção a participação da guitarra, em acordes simples, entretanto, de impressionante agilidade e destreza.
Sensual, aliando ao blues elementos da latinidade rumbeira e pitadas inegáveis de hard rock "Sugar Mama" determina mais um belo momento do espetáculo, em mais uma brilhante performance da guitarra distorcida em acordes vigorosos. Intenso!
Explorando o acento rockabilly à composição pautada no hard rock, "I'm Ready" traduz em seus arranjos simples o reforço de bass apoiado pela bateria cadenciada e baixo profundo, denotando à canção densidade.
Finalizando o show "Mississippi Mood" e "Got My Mojo Working" trazem a fusão entre blues e elementos do country, explorando sonoridades jazzísticas como o doo wop.
Subindo ao palco por volta das 23h00 para apresentação solo, um intimista Ben Harper cita alguns dos grandes nomes de nossa MPB que lhe serviram de inspiração para a composição da canção "Blessed To Be a Witness", entre estes figuram os nomes de Vanessa da Mata, Jorge Ben Jor e Gilberto Gil. A canção, simples em sua estrutura, tocada em um cavaquinho, remete vagamente ao samba-canção e à nascente bossa nova dos anos 50.
Aproximando-se aos ukuleles havaianos "Strut", canção tocada com violão dobro, chama a atenção exatamente pela inusitada sonoridade extraída do instrumento, em toada que remete às ulas, em cíclica estrutura de rondó, sugerindo introspecção.
Após a execução de "Excuse Me Mr.", em "Fight Outta You" o violão dobro é novamente dedilhado com slide na horizontal em uma canção suave, explorando a sonoridade árabe dos solos de derbak, para uma interpretação vocal intensa, urgente, demonstrando com propriedade o mote da letra de protesto. Interessante e ousado.
O artista marca sua passagem pelo festival com uma apresentação linear e tranquila, cercado de sua habitual simplicidade. Além de canções mais conhecidas do grande público, como "Another Lonely Day", "Forever" e os hits "Diamonds On the Inside" e "Burn One Down", o astro executa a nova canção de trabalho com os The Innocent Criminals, a crítica e ácida "Never Needed Anyone".
Marcando participação especial no show, Harper divide o palco com Charlie Musselwhite para as execuções de "Trying Not To Fall In Love With You", "I Trust You To Dig My Grave", "You Found Another Lover" e "Homeless Child", encerrando a apresentação.
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